Ensino remoto: vozes que as enquetes não alcançam
A pandemia da Covid-19 nos impôs, desde março, a necessidade de mudar nossos planos para 2020 e nos apresentou, em um curto espaço de tempo, uma série de recursos digitais que têm auxiliado a garantir a manutenção de algumas rotinas. Essa adesão, porém, não tem sido tranquila. Reuniões atrapalhadas, dificuldades de conexão, problemas de adaptação do ambiente de trabalho/estudo, atrasos na transmissão, falta de intimidade com dispositivos tecnológicos, esses e uma série de outros desencontros se tornaram parte do cotidiano de muitas pessoas. Nem o governador Wilson Witzel escapou, perdendo a conexão em meio a uma entrevista ao vivo para o RJ 1, da TV Globo.
Embora a dificuldade se apresente para todos, ela não atinge todo mundo da mesma forma. A pandemia tem aprofundado as desigualdades sociais, separando os grupos que têm maior acesso a recursos e aqueles que precisam elaborar estratégias básicas de subsistência. A solução não é simples, pois as dificuldades se sobrepõem.
O movimento de educação, que inclui o Andes-SN e a Adunirio, tem apontado para a necessidade de buscarmos soluções para o problema da impossibilidade da aula presencial de forma a garantir o direito de todos estudantes a darem prosseguimento ao seus cursos em igualdade de condições. As propostas de ensino remoto emergencial que surgiram até então, porém, são incapazes de dar conta de toda a questão.
Para destacar apenas um dos impactos da proposta de retomada das aulas via ensino remoto emergencial, é preciso observar quais as implicações que uma medida como essa têm no aprofundamento do racismo estrutural. De acordo com a agência de notícias Alma Preta, 74,44% dos estudantes negros que realizaram o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) em 2019, não têm estrutura mínima em casa (internet no celular ou computador) para assistir aulas à distância. Entre todos os estudantes que compareceram às provas, esse total é de 21%.
A exclusão tem aspectos também regionais e aponta que o ensino remoto pode aprofundar desigualdades entre partes do território nacional atendidas pelo sistema federal de educação superior. O levantamento noticiado pela Alma Preta indica também que, em estados como o Pará, 49% dos estudantes que compareceram ao Enem não possuem condições mínimas para o aprendizado remoto. No Rio de Janeiro esse percentual alcança os 12%. Segundo o Ministério da Educação (MEC), das 69 universidade federais, apenas 13 optaram pelo ensino remoto. E mesmo nessas, houve resistência e uma série de reivindicações que foram simplesmente ignoradas pelas administrações dessas instituições.
Pensando nisso, conversamos por telefone com algumas estudantes que têm vislumbrado passar por grande dificuldade com a possibilidade de um retorno via ensino remoto emergencial. São situações de vida que ficam simplesmente invisibilizadas no debate sobre a retomada remota das aulas e indivíduos que, por vezes, nem chegam a ter acesso às enquetes digitais feitas por departamentos e pela reitoria sobre a situação do corpo discente da Unirio sob o impacto das medidas de enfrentamento à pandemia. São estudantes que, apesar da vida revirada, esforçam-se para manter seus compromissos com projetos de extensão, seu vínculo com a universidade, mas que não acreditam que as aulas remotas sejam uma solução capaz de garantir o seu direito conquistado de não ficar pra trás.
Reformulando a estratégia
Maria Eldeane é uma das estudantes que teve que reinventar as próprias condições de sobrevivência com a chegada da pandemia. Cursando o 6º semestre de História na Unirio, moradora do morro da Providência, a jovem vivia até então da Bolsa de Incentivo Acadêmico (BIA) e do recurso extra que conseguia levantar de maneira informal vendendo alimentos para colegas da comunidade acadêmica. Com o isolamento social e o fim daquele complemento de renda, a jovem negra se viu numa situação extremamente difícil.
Não foi a primeira vez, porém, que precisou se reinventar. Aos 16 anos, veio de Pernambuco para morar no Rio de Janeiro com o avô, cuja violência fez com que a jovem optasse por sair de casa e viver nas ruas durante um período da sua vida. Ingressou na universidade aos 25 anos e diz que já avistava no horizonte próximo a conclusão do curso quando foi impactada pela pandemia. “Eu sempre fui muito ativa e me vi deprimindo com a situação de isolamento e da perda do meu complemento de renda”, explicou Maria Eldeane. Diante da situação, um amigo sugeriu que aderisse ao serviço de entrega por aplicativos e a ajudou, com peças encontradas no lixo, a montar a bicicleta com a qual ela está trabalhando atualmente.
“Atualmente eu tenho mantido as atividades da BIA, pois há muita pressão para que a gente continue produzindo mesmo sem ter condições, mas a verdade é que é inviável continuar as atividades sem um ambiente propício, sem condições de acesso a internet e sem o cuidado mental necessário”, afirmou a estudante. No pequeno quarto onde mora, o acesso a internet só é possível via celular, o qual é também o instrumento que Maria Eldeane utiliza para obter os seus cerca de R$ 3,50 por entrega que faz, numa média de 15 entregas por dia.
Para Maria Eldeane, a imposição do ensino remoto nas atuais condições “é o ato de maior legitimação da exclusão da população pobre e negra do meio de educacional” que podemos assistir nos últimos tempos. “ Querem forçar uma parte da população a perder o ano acadêmico, não tem nada de opcional”, afirmou.
Ao ser peguntada, qual a solução que vê para o problema de se dar prosseguimento às aulas no atual cenário, Maria Eldeane explicou que “o ideal seria esperar a vacina, mas como não se tem nenhuma garantia sobre o tempo que isso leva, precisamos de uma medida que dê condições para todo mundo de fato”.
Readaptando
A estudante Roseneide Pinto Anastácio, a Rose, cursa o 7º período do curso de Ciência Política e se viu em um momento de muita angústia com os efeitos da pandemia. “A vida virou de cabeça pra baixo”, disse ela. Em abril expiraram os dois anos de vigência da sua bolsa (BIA) e o restaurante vegano no qual trabalhava de garçonete a dispensou. Por causa disso, precisou voltar para a casa do pai, na Cidade de Deus, onde não tem acesso nenhum a internet.“Nem celular pega direito lá”, afirmou.
Para não ficar totalmente desconectada digitalmente, Rose saiu da Cidade de Deus e foi para a casa de uma amiga (Kellen) no bairro de Marechal Hermes. As duas compartilham com a família o computador que é da tia da colega que a acolheu. Nesse meio tempo, a estudante tentou traçar uma alternativa de sustento com a venda de cosméticos, mas logo abandonou a ideia pois percebeu que na atual conjuntura não há demanda para esse tipo de atividade.
Rose tem um plano de celular de R$ 20 mensais que, segundo ela, não dura o mês inteiro. “Não são 100% dos alunos que têm condições de aderir ao ensino remoto. Muita gente não tem internet, computador nem um ambiente de estudos adequado”, explica.
Prioridades
Para falar com Kellen Ingrid, estudante do 7º período Ciência Política, telefonamos para sua mãe, pois a jovem não possui celular. Atualmente, ela utiliza o computador que pega emprestado com sua tia, quando esta não está trabalhando. Além dela, sua irmã e a amiga de faculdade (Rose), que está morando temporariamente com ela ,dividem o equipamento. Com o impacto da pandemia, a renda na casa de Kellen encolheu, pois seu pai e mãe trabalham com serviços para terceiros e a demanda ficou comprometida.
A estudante, que leva 3 horas de casa até a faculdade em tempos normais, considera “terrível” a perspectiva de um retorno às aulas via ensino remoto. “Existem assuntos muito mais urgentes para serem resolvidos, como a manutenção dos estudantes de baixa renda na universidade, e nós não vemos essa pressa em implementar soluções”, afirmou.
Kellen disse se preocupar com o número de trancamentos de matrícula que pode gerar a adesão a uma modalidade de aula que não garante as condições necessárias para todos. Ela considera que a faculdade deveria aproveitar para discutir a problemática da manutenção dos estudantes de baixa renda e resolver questões relativas à assistência estudantil, à moradia, à implementação das bolsas de incentivo acadêmico, alimentação e monitoria – as quais têm apresentado problemas.
“Não podemos ter como solução fingir que não temos um problema e, assim, acabar o ano letivo”. A estudante ressaltou que os professores não têm nenhum suporte e a maioria não sabe usar os recursos do ensino remoto.
Muito além de uma questão estrutural
Fernanda Almeida cursa o 7º período de Enfermagem e atualmente divide o computador com a irmã de 17 anos. Moradora da comunidade Parada de Lucas, a estudante explicou que não possui condições de acesso à internet adequadas para o retorno às aulas na modalidade de ensino remoto. “Além dos problemas de estrutura, nós sofremos aqui, assim como várias outras comunidades do Rio, com os confrontos entre facções do tráfico e com as operações da polícia na região”.
A estudante explica que a mãe, diarista, não foi liberada do serviço pela patroa durante o período da pandemia e que isso é motivo de apreensão em casa. A possibilidade da volta às aulas da irmã que estuda na rede pública aparece como uma questão difícil de resolver em relação à divisão do equipamento necessário para a aula pela internet. “Considero muito difícil pensar em ensino remoto sem as condições de acesso e sem amparo psicológico”, afirmou.
Fernanda participa também de um projeto de extensão que já lhe rendeu bastante preocupação. Ela atende pacientes pelo WhatsApp, mas durante a pandemia passou um dia inteiro sem conexão enquanto as pessoas esperavam pelo seu atendimento, o que, segundo ela, deixou-a bastante apreensiva.
“Pra mim ficou muito claro como a desigualdade na nossa sociedade tá muito exposta, mas a gente não a via tão próxima e agora ela tá gritando”, afirmou Fernanda. “A universidade, apesar da política de cotas, está longe de trabalhar com equidade, é uma universidade elitista”, complementou.
Dividindo os recursos
Gabriella Sena cursa o 8º período do curso de Enfermagem, último semestre de aula antes de ir para o internato. Segundo ela, o impacto da pandemia “acabou com todos os planos”. A estudante estava iniciando um estágio extracurricular e foi dispensada.
Na casa de Gabriella, o computador é dividido com 5 pessoas e tem prioridade a irmã que trabalha das 8h da manhã às 18h na modalidade “home office”. “Não tem outro espaço em casa tranquilo para estudar: tem barulho obra, criança chorando etc.”, explicou.
Gabriella se diz preocupada também com as condições psicológicas para o aprendizado. “Eu tinha acompanhamento com os psicólogos da UFRJ, mas o serviço foi suspenso presencialmente e o remoto não é a mesma coisa”, afirmou. Além disso, a estudante aponta uma característica peculiar do seu curso. “Não tem como a gente aprender à distância sobre cuidado, pois é uma prática que demanda a presença e o toque”, explicou.
Por uma educação de qualidade
Karoline Linhares cursa o sétimo período na escola de Enfermagem Alfredo Pinto. A Adunirio fez a entrevista com ela por áudio de WhatsApp porque ela se encontrava com problemas no sinal do 3G. Ela explicou que mora em um lugar com problemas de violência e que se encontra sem serviço de internet fixa porque roubaram os cabos do provedor que oferecia o serviço.
Neste ano, Karoline fez a prova para o Acadêmico Bolsista, mas, segundo nos informou, só houve chamado para a atenção básica. A estudante não pôde ser contemplada porque integra um grupo de risco.
“Não acho justo e correto o ensino remoto numa faculdade pública, sou cotista, bolsista e batalhei muito para conseguir essa vaga como várias outras pessoas”, afirmou Karoline “Acredito no acesso ao ensino superior como forma de mudança de vida para muitos, o acesso de qualidade ao ensino superior precisa ser mantido e precisa ser para todos”, completou.
Acessibilidade
Amanda Conceição dos Santos cursa o 3º período de Medicina e explicou que já sofreu com problemas de acessibilidade e preconceito na Unirio. A estudante é negra e possui alguma deficiência visual, mas nem sempre encontrou disposição por parte da universidade para atender às suas necessidades de adequação. Já chegou a perder disciplina por não conseguir ler questões de prova e por vezes ouviu comentários do tipo “força a vista que você vê!”, sugerindo falta de esforço e preguiça por parte da discente.
A possibilidade de um retorno às aulas via ensino remoto coloca uma questão fundamental para Amanda: “Se no presencial já não se garante acessibilidade, o que esperar do ensino remoto?”. A estudante lembra que muitos docentes e discentes não têm nenhum costume com as plataformas digitais e não há uma metodologia para essa modalidade de curso. “As aulas vão ser ao vivo ou estarão disponíveis depois?”, questionou Amanda.
Além disso, a estudante diz que o computador que possuía há mais de 10 anos “queimou” no início do ano e que agora só consegue utilizar a internet por celular com um sinal péssimo. “O sinal cai o tempo todo, eu ligo pra manutenção sempre e já me tornei conhecida do atendente”, afirmou. Apesar da dificuldade, Amanda mantém o vínculo com o projeto de extensão, acompanhando e se comunicando com pessoas que sofrem de hipertensão e obesidade.



