Professores, técnicos e estudantes sofrem com más condições em instalações da Unirio
Há cerca de um ano, a Unirio decidiu pelo retorno às atividades presenciais, depois de dois anos de isolamento impostos pela pandemia de covid-19. Ao regressarmos, nós nos deparamos com velhos problemas de infraestrutura; agravados, por um lado, pela necessidade de mantermos protocolos sanitários e, por outro, pelos sucessivos anos de corte no orçamento de despesas das universidades. Com a chegada de um novo governo e às vésperas do início de um novo ano letivo, é tempo de fazer uma avaliação da situação em que nos encontramos, considerando que são aspectos importantes para a saúde do/a trabalhador/a e de estudantes. O espaço da universidade precisa ser acolhedor e propício ao desenvolvimento das atividades acadêmicas, além de garantir a saúde física e mental de todos/as.
As fachadas dos edifícios são representações visuais da universidade e, assim, influenciam na sua imagem e na satisfação das pessoas que participam da comunidade acadêmica. Além da função estética, porém, a sua deterioração coloca as pessoas que circulam no entorno em risco. O prédio do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia (CCET), por exemplo, esteve nos últimos meses com uma faixa de isolamento, no lado voltado para o estacionamento, devido à queda de parte da marquise. O Centro de Letras e Artes (CLA) também mantém uma parte interditada atualmente e já precisou anteriormente de manutenção pelo mesmo motivo. O Instituto Biomédico (IB) está atualmente com o letreiro incompleto e sua fachada se encontra em péssimas condições.



Circulando pelas unidades acadêmicas identificamos problemas graves nas instalações físicas, principalmente em andares superiores de edifícios como, por exemplo, o do CCET e o Padre Anchieta, nos quais se vê infiltrações, buracos e rachaduras. Recebemos denúncias também de que não há condições apropriadas em prédios como o do IB para situações de emergência, como incêndios, o que coloca as pessoas em risco. Estas foram corroboradas por uma reportagem da TV Globo, veiculada no dia 20 de março, no programa RJ 1, na qual estudantes denunciavam vários problemas, como a falta de alvará dos bombeiros para o uso do prédio, elevadores quebrados, infiltrações e corrimãos soltos.
No dia 22 de março, dois dias após a veiculação da matéria da TV Globo sobre as condições no IB, o diretor da unidade, Pedro Celso Alexandre, divulgou um ofício informando “o adiamento do início das atividades letivas, alocadas nos espaços do campus [do IB], do primeiro semestre de 2023, por tempo indeterminado, até que seja apresentado pela administração superior um plano de ação, exequível, que possibilite o retorno das atividades com segurança a todos.”






Na véspera da divulgação pela TV das imagens do IB, houve o desabamento de parte do teto em frente ao principal auditório da Unirio, o Vera Janacopulos. O espaço fica muito próximo da Reitoria, em um edifício compartilhado pelas escolas de Enfermagem e Nutrição.

Um problema já existente que se tornou mais evidente para a comunidade universitária após a pandemia de covid-19 é a situação dos banheiros da Unirio, pois se passou a dar mais atenção às condições sanitárias como estratégia fundamental no combate ao contágio. O número de banheiros na Unirio é insuficiente e muitos dos existentes são improvisados e se encontram em condições bastante precárias. Os insatisfeitos com as instalações sanitárias chegam à 51%, conforme o Relatório de Autoavaliação Institucional 2022, ano-base 2021. Os banheiros do IB, por exemplo, foram retratados nas denúncias da já citada reportagem da TV Globo pelas suas péssimas condições, apesar de a unidade acadêmica ser voltada para a formação de profissionais especializados no diagnóstico, prevenção e tratamento de doenças.



São diversos os entraves à circulação das pessoas em alguns pontos da Unirio, tendo caminhos bloqueados ou difíceis. A acessibilidade para pessoas com deficiência é insuficiente: faltam rampas, corrimãos e com frequência os elevadores não funcionam. A entrada de pedestres nos CCH e CCET é feita pelo estacionamento, por uma porta improvisada no portão dos carros e as pessoas precisam transitar entre os veículos, não havendo calçada exclusiva para quem está a pé. Neste mesmo estacionamento, encontram-se alguns carros totalmente abandonados. A passagem entre o CCH e o CLA é mal iluminada, esburacada e alguns ônibus quebrados obstruem o caminho. Recentemente foi feita uma obra que pavimentou parte deste espaço, mas esta atende apenas à porta que abastece o restaurante universitário. A pequena ponte de ligação por cima entre os edifícios do CLA e do Instituto Villa-Lobos (IVL) se encontra interditada por um tapume, ao que tudo indica devido ao perigo oferecido pelas condições dessa passagem.






A falta de salas de professores é uma das maiores insatisfações registradas. São 57% o número de descontentes, segundo o já citado Relatório de Autoavaliação Institucional 2022, ano-base 2021. Há também dificuldade para compartilhar salas de aula e agendar atividades em auditórios. A construção do prédio do CCH, que serviria para desafogar em parte esta demanda, se prolonga por cerca de uma década. A demora para a reforma do casarão do Centro de Ciências Jurídicas e Políticas (CCJP) também prolonga o problema. Há ainda um terreno de 5,3 mil² no Engenho de Dentro, pertencente à Unirio, que está totalmente subutilizado, praticamente esquecido no cotidiano institucional da universidade.

Um outro aspecto importante é a falta de espaços de convivência e repouso. Fora das salas de aula, as pessoas improvisam e se sentam nas muretas, escadas e afins. Tendas foram colocadas há alguns anos no CCH e no CLA de forma paliativa para oferecer uma alternativa, mas para serem consideradas um espaço de convivência e repouso no cotidiano essas estruturas são muito precárias. Da mesma forma, não há praticamente opção para a prática de esportes, exceto pela quadra que se encontra no topo do prédio do restaurante universitário. Faltam ainda opções de alimentação no interior da Unirio, o que é agravado em alguns campi cujo entorno praticamente não dispõe desses serviços.


A Pró-Reitoria de Administração é a responsável pela gestão patrimonial da Unirio e possui uma Coordenação de Engenharia. No site da Unirio, a última atualização das ações desse órgão foi feita em 2020.
É esperado que alguns problemas existam em instituições grandes, mas na Unirio eles se acumulam. Nós da Adunirio que visitamos recentemente outras universidades durante eventos sindicais e acadêmicos nos surpreendemos com o bom estado de conservação e de cuidado em outras instituições federais de Ensino Superior (Ifes) se comparadas com o que temos aqui na Unirio.
A Unirio observou o encolhimento dos recursos disponíveis para despesas ao longo dos anos. Em 2016, quando se vê o início da série de cortes através do Quadros de Detalhamento de Despesas (QDD), eram estimados inicialmente R$ 74,5 milhões (valor corrigido pela inflação do período, conforme o IPCA) para gastos discricionários na Unirio. Em 2022, este valor foi de cerca de R$ 47 milhões, representando uma perda de cerca de 37% em seis anos (desconsiderando os bloqueios). Apesar disso, há emendas parlamentares (como a emenda da bancada do Rio de Janeiro, por exemplo) à disposição da instituição que somaram em 2022 cerca de R$ 162 milhões, mas a forma como a gestão da universidade a aplica ainda não obedece a regras de transparência necessárias.
Fica claro que parte do problema passa pela liberação de verbas para manutenção e investimento em infraestrutura, mas é preciso também discutir a transparência na gestão dos recursos e a concepção que organiza o funcionamento dos nossos espaços de trabalho.

