60 anos depois: Praça da Unirio pode ser transformada para recuperar memórias da resistência à ditadura
No contexto da nossa pauta de Memória, Verdade e Justiça, e dos 60 anos do golpe que instaurou a última ditadura no país, a Adunirio entrevistou neste mês de março Vítor Halfen Moreira, arquiteto da Unirio desde 2017, que atua na Coordenação de Engenharia. Desde que está nesta instituição, nosso entrevistado vem tratando de questões sobre edifícios da universidade com valor histórico e nos relatou que a falta de material com informação sobre a história dos edifícios e sobre a constituição do espaço da Unirio tem sido uma dificuldade recorrente.

“A gente tinha uma lacuna muito grande dessas informações, quase tudo que a gente conseguia era por informação verbal, relatos, e então a gente sentiu essa necessidade de organizar um pouco uma pesquisa”, explicou Halfen.
Após os esforços iniciais de pesquisa, foi elaborada também a proposta de se constituir um grupo de trabalho capaz de concentrar algumas iniciativas para intervir no espaço universitário. Dessa equipe fazem parte atualmente a Adunirio, Asunirio e o DCE, além de alguns núcleos da gestão da Unirio. Nos debates que já avançaram, vem se consolidando a possibilidade de recuperar algumas memórias e requalificar o espaço da praça que se encontra na entrada da universidade na Praia Vermelha, transformando-a em um símbolo da resistência universitária à ditadura.
Confira abaixo a entrevista sobre o tema.
Do que se trata e como funciona esse grupo de trabalho que vem discutindo os espaços livres e a memória da Unirio?
V.H.M: O Grupo de Trabalho Espaços Livres, Memória e Democracia já vem se reunindo desde novembro de 2023. Em dezembro se consolidou a ideia de um GT com representação dos três segmentos para tratar justamente dessa pauta dos espaços da universidade, dessa necessidade muito urgente de requalificação dos espaços livres. Claro que os espaços edificados também necessitam de grande cuidado, mas focamos em tratar dos espaços livres e com uma perspectiva de resgatar, através disso, a história da universidade e a memória desses espaços, principalmente relacionada ao período da ditadura.
O GT se organiza a partir de três frentes principais e parte da necessidade da requalificação urbana do campus, principalmente a partir de dois olhares: um sobre a questão da acessibilidade, que é fundamental, e outro numa perspectiva de criar espaços de convivência com qualidade na universidade.
Todos os campi da Unirio sofrem muito com o problema de acessibilidade. O campus da Praia Vermelha é um deles. Então, temos a ideia de requalificar os acessos, todas as áreas de circulação, calçadas, tornar o campus 100% acessível e a praça de acesso também, como uma espécie de porta de entrada da universidade.
Além disso, a Unirio é uma universidade que sofre muito com a qualidade de seus espaços de encontro, de reunião, de congregação da comunidade universitária. A maioria dos espaços que a gente tem são espaços muito precários. A gente tem as tendas que estão instaladas ali no campus, mas a gente tem uma dificuldade crônica com espaços pensados para convivência e espaços que deem suporte à vida no campus: equipamentos de alimentação, pontos de alimentação variados, onde as pessoas possam sentar, se reunir. Essa é uma necessidade muito importante, que é um dos aspectos centrais desse eixo urbano do GT.
O segundo eixo é o da memória, de construir, então, na praça, na entrada da Unirio pela avenida Pasteur, um memorial, marcando a importância daquele espaço para a resistência das universidades durante a ditadura. E, em paralelo, não só na praça, mas o campus todo ser transformado num museu vivo.
E o terceiro eixo do GT que estamos estudando é o da cultura, no qual se pensa o que seria quase uma vocação muito evidente daquele campus de ser um equipamento público urbano de arte e cultura. Ali se tem os cursos de Música, Teatro e Engenharia de Produção com ênfase em produção cultural. Já temos naquele campus uma série de atividades artísticas e culturais, festivais, apresentações, montagens, que são feitas todo semestre nas escolas de Teatro e de Música.
A ideia seria qualificar os espaços livres do campus para poder receber essa grande diversidade de atividades que já acontecem e novas que poderiam acontecer e ser propostas nesses espaços, tanto dentro do campus como também na praça.
E daí vem a ideia de transformar a praça num espaço cultural para apresentações, performances artísticas, festivais culturais que poderiam ser abertos para a população da cidade, além da universidade. Essa, vale dizer, é uma proposta muito importante que vem sendo já encampada há algum tempo pelo professor Zeca Ligiéro, decano do CLA, que se incorporou, então, também nessa ideia de repensar a praça e o campus a partir dessas três perspectivas de (1) requalificação urbana, (2) da memória e (3) dos equipamentos culturais.
Por que a escolha dessa praça para tratar da memória das lutas contra a ditadura?
V.H.M: No que diz respeito a resgatar a história da universidade e a memória de seus espaços, principalmente relacionada ao período da ditadura, é uma coisa muito forte que nos deparamos ao longo das pesquisas, porque a Unirio não é tanto uma universidade que foi transformada pela ditadura, e sim uma universidade que se construiu na ditadura. Então, isso é uma marca muito forte em vários aspectos, é um elemento central da história de seus espaços. E, ao mesmo tempo, é uma memória, em geral, muito apagada.
Existem alguns episódios que são importantes, que são emblemáticos dessa história. Um desses é justamente a história do campus da Praia Vermelha, que é o que tem o maior número de alunos. Foi construído ocupando o vácuo, vamos dizer assim, da UFRJ, nos espaços deixados por esta durante a década de 60 e 70, quando fazia sua transição pra Ilha do Fundão e a Unirio começava a ocupar alguns deles.
O caso mais emblemático é justamente o do que a gente chama ali de “avenida Pasteur 458”, que era onde ficava o edifício da Faculdade Nacional de Medicina da UFRJ. Era um prédio monumental, de arquitetura eclética, construído em 1918, semelhante, de certa forma, àquele conjunto todo edificado da Urca – o Palácio Universitário, o Benjamin Constant, a CPRM, esses edifícios monumentais – e a Faculdade de Medicina era o último deles, no final da avenida.
Esse prédio se tornou, no início da ditadura militar, um edifício muito simbólico para a resistência estudantil, por causa de um episódio que ocorreu lá em 1966, que foi o massacre da Praia Vermelha. Este marca, talvez, o primeiro momento de acirramento, de enfrentamento, no sentido físico mesmo, do movimento estudantil com as forças de repressão do regime militar naquela época. Até então, existia já uma certa tensão entre o movimento estudantil e a ditadura, mas ali, em setembro de 1966, eclodem uma série de greves estudantis em todo o país e, especificamente, na UFRJ, que funcionava ali.


E nesse contexto, os estudantes organizam uma passeata, em 22 de setembro de 1966, que começou no Palácio Universitário da UFRJ, e saem em direção à Faculdade de Medicina, percorrendo toda a extensão da avenida Pasteur. Chegando lá, fazem uma grande assembleia estudantil e decidem ocupar o prédio.
Ao longo dessa movimentação, a polícia militar e a polícia do exército cercam o edifício. Os estudantes mantêm a ocupação durante toda a noite, enquanto era negociada uma saída, uma desocupação, inclusive, com o reitor da UFRJ na época, Pedro Calmon. Durante essa negociação, por volta das três horas da manhã, a polícia invade o prédio com toda a força policial que eles tinham e começam a varrer o edifício agredindo todos os estudantes.
Os relatos contam que nessa noite da ocupação o prédio estava com cerca de 600 estudantes e a polícia o invadiu o agredindo todos usando a técnica de violência chamada de corredor polonês. Os depoimentos contam que vários estudantes foram parar no hospital. Foi um evento que marcou muito fortemente aquela época, porque foi um ato de violência até então inédito por parte do regime militar em direção às universidades, à autonomia universitária, o fato da polícia invadir o campus, invadir o edifício. Um ato de violência muito brutal contra os estudantes. Então, esse foi um episódio que teve muita repercussão na sociedade.
A partir desse episódio, esse edifício da Faculdade de Medicina vai se tornar uma espécie de símbolo da resistência estudantil. O episódio do massacre ocorre na madrugada do dia 23 de setembro e um mês depois, em 23 de outubro de 66, o movimento estudantil realiza um ato ali na Faculdade de Medicina, rebatizando a rua lateral que dava acesso à Faculdade de Medicina como rua “Autonomia Universitária” – reforçando, então, a reivindicação da autonomia conspurcada pelo regime militar – e batiza a praça como “23 de setembro de 1966”. Isto deixa muito evidente como esse edifício e esse local se tornaram um local simbólico importante de resistência contra a ditadura.
Poderia nos explicar um pouco mais essa relação do espaço da Unirio com as memórias da ditadura no campus da Praia Vermelha?
V.H.M: Essa história é sempre tratada como uma história da UFRJ. Então, no senso comum, ela é considerada como uma história da ditadura na UFRJ. Porque, de fato, ela aconteceu na UFRJ. Em 1966, a Unirio não existia ainda nem como FFIEG. Ela é criada pouco tempo depois, em 1969, mas esse espaço, que se torna simbólico para a luta contra a ditadura, ele vai se tornar alvo dos militares justamente numa tentativa de apagar um pouco essa importância histórica e simbólica do edifício da Faculdade de Medicina.
Alguns anos depois, em 1973, a Faculdade de Medicina é transferida. A Faculdade de Medicina da UFRJ é transferida da Urca para Ilha do Fundão e, com isso, o prédio da Faculdade de Medicina é desocupado. E, rapidamente, apesar de ser um edifício monumental e construído em 1918 (o que para a época era considerado ainda relativamente novo, em ótimas condições, e que tinha, inclusive, sido ampliado ao longo da década de 50), os militares decidem, em 1975, pela demolição do edifício. Sem uma justificativa muito clara, mas com uma justificativa um pouco nebulosa de que o terreno seria cedido para a Eletrobras, para esta construir a sua sede, o que nunca aconteceu. Todos que estudam um pouco esse período reconhecem que a única justificativa possível para a demolição do prédio é justamente o apagamento da memória desse episódio.
Nesse contexto, o final da década de 70 é justamente o momento da Unirio se consolidar como universidade. Já tendo sido criada em 69 como uma federação, em 79 a Unirio passaria a ser uma universidade. Estava começando a haver um esforço de tentar reunir numa mesma área as escolas federais isoladas, que eram a estrutura original da federação. E esse movimento de retirada de alguns cursos da UFRJ que são transferidos para o Fundão, libera-se, digamos assim, espaço para a Unirio ocupar esses edifícios.
E em 79, a Unirio inicia a ocupação dos edifícios que hoje são parte do Centro de Letras e Artes. Aqueles edifícios também eram da UFRJ, a Unirio os recebe em 79, reforma e passa a ocupar esse novo campus por volta de 1980. Em paralelo a isso, a Unirio vai buscando reivindicar esse espaço demolido da Faculdade de Medicina para expandir seu campus ali. E isso aconteceu alguns anos depois, em meados de 1985, mais ou menos.
Vale dizer que, nesse contexto, quem comanda esse processo é o reitor da Unirio na época, o Guilherme Figueiredo, que é irmão do Presidente da República, João Figueiredo, último ditador. Essa relação, de certa forma, vai facilitar, digamos assim, esse movimento de apagamento da história daquele edifício, daquele espaço.
Então, por mais que tenha continuado como um espaço universitário, essa memória do que aconteceu ali vai ser um pouco perdida nessa transição, de forma, aparentemente, bastante intencional. De tal maneira que hoje essa história é realmente lida como uma história da UFRJ e não como uma história de como o espaço da Unirio se constituiu.
Nessa história que você recupera, os nomes dos espaços parecem ter uma função importante, certo?
V.H.M: Então, a partir dessa pesquisa, a gente começou a pensar em uma intervenção necessária nesse espaço da praça. Na verdade, essa história é um pouco curiosa, porque não é exatamente a praça que existe ali, o acesso principal do campus, que tinha sido batizada de “Autonomia Universitária”. Este nome foi dado à rua da qual hoje existe apenas um resquício na entrada do estacionamento do campus. É uma rua que não existe mais. Mas, essa rua foi batizada de Autonomia Universitária.
Nessa iniciativa de tentar ressignificar aquele espaço e revelar um pouco dessa memória apagada, a gente se deparou com duas coisas muito simbólicas.
Uma delas é o fato de que a praça hoje carrega o nome do Guilherme Figueiredo, que foi o primeiro reitor da Unirio, mas que é, de certa forma, figura responsável por esse apagamento histórico dessa memória, em certo sentido, claro que não é exclusivamente.
E daí surgiu a proposta da gente renomear esse espaço, resgatar justamente o nome que os estudantes deram para aquele espaço como uma forma de enfrentamento ao regime militar e demonstrar também com essa proposta de renomeação, demonstrar que a história dessa praça, ela não é desse espaço, não é só da praça, mas a praça como um símbolo disso, que a história dessa praça é relevante não apenas para a Unirio, mas ela é um espaço muito importante para contar a história da universidade no Brasil sob a ditadura militar. Ela é um espaço de memória das violências que a universidade brasileira sofreu sob o regime militar e certas consequências disso que se mantêm até hoje.
E é muito simbólico que esse espaço seja um espaço ocupado por duas universidades sucessivamente e que as duas tenham as suas histórias de violência e de autoritarismo para contar nesse espaço. Então, por isso, a ideia de rebatizar a praça com o nome de “Autonomia Universitária”, acho que evidencia um pouco essa dimensão mais ampla da memória daquela praça, da importância dela para a Unirio, mas não só para a Unirio.

Essa é uma das propostas do GT. Além disso, tem-se a ideia de estudar e propor intervenções no espaço do campus para que a gente, de certa forma, transforme-o em uma espécie de museu vivo da história da Unirio. E não só da Unirio, como eu disse, mas da universidade brasileira, já que aquele é um espaço cheio de histórias.
A Unirio é uma universidade que tem o curso mais antigo de museologia da América Latina, no entanto, a gente ainda não tem um museu. Isso, de certa forma, seria uma iniciativa de transformar o espaço da universidade, os espaços livres, nesse museu vivo da nossa história e marcar, de certa forma, essa relação daquele espaço com a ditadura militar.
Um outro símbolo muito importante que a gente vem estudando como trabalhar é o edifício da Faculdade de Medicina demolido pelos militares. A fundação do edifício e boa parte dos destroços do edifício estão soterrados no campus. Então, existe uma coisa quase metafórica, que é o fato de que boa parte dos edifícios da Unirio foram construídos apoiados na fundação desse edifício demolido pela ditadura militar.
Os edifícios do CCH, do CCET/IBIO, e, inclusive, o prédio novo do CCH, que está em construção, todos eles se apoiam nas fundações desse antigo edifício. Então, de certa forma, existe até uma metáfora desse apagamento, da gente construir por cima. E uma das iniciativas que a gente vem propondo dentro do GT é de se construir na praça um espaço memorial, deixando em exposição permanente, uma exposição pública com partes da fundação da Faculdade de Medicina que a gente recolheu das escavações que foram feitas no campus durante as obras que a gente vem realizando.
Quais as condições nós temos atualmente para realizar essas ações que você aponta?
V.H.M: A gente está no momento inicial, embora o professor Zeca Ligiéro, inclusive, já tenha encampado isso há mais tempo. Como consequência disso, a Unirio fez a adoção da praça. Em janeiro de 2023 foi firmado o termo de adoção, no qual a Unirio se responsabiliza pela sua manutenção. A gente apresentou essa ideia do projeto, dessas outras dimensões, urbana e da memória, à reitoria em setembro e a partir daí foi encampada a ideia, que vem se desenvolvendo a partir daí.
Uma das ações do GT foi elaborar o projeto para a praça e para o campus de forma participativa, de forma a envolver toda a comunidade da Unirio na discussão do que se quer para esse espaço, do que se espera da praça e dos demais espaços do campus. E uma forma de construir isso foi elaborar um programa de extensão no qual a gente pudesse atuar de forma conjunta com estudantes, professores e técnicos administrativos para desenvolver esses projetos e realizá-los.
Nós já submetemos a proposta desse programa. A ideia é desenvolver com estudantes bolsistas de extensão de cultura ao longo do ano os projetos e realizar uma série de audiências comunitárias para construir de forma coletiva, de forma participativa o projeto.
O programa de extensão que a gente está iniciando agora, é um programa de extensão coordenado por técnicos administrativos, com a participação de estudantes, com a participação também de docentes que contribuem, inclusive no GT. Temos um grupo de trabalho criado com representação dos três segmentos da universidade, com representantes da Adunirio, das Asunirio e do DCE. As três entidades estão envolvidas e comprometidas na pauta desse projeto.
É importante ressaltar também que esse projeto tem tripla origem. Eu já falei da iniciativa do professor Zeca Ligiéro, mas também tem a ação de pesquisa do Grupo de Estudos Patrimônio Memória Universitária da Coordenação de Engenharia, que a gente desenvolve desde 2021, e do projeto Nosso Museu, coordenado pela Luciana Menezes de Carvalho, museóloga, técnica administrativa também da Unirio, que desde o início de 2023 vem pensando sobre esse museu da Unirio, que é algo que a gente pretende implementar.
Então, a partir dessas três origens esse projeto foi desenhado, reunindo as três frentes, e foi apresentado à Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, que encampou a ideia. E foi também apresentado às três entidades, a Adunirio, a Asunirio e a DCE, que também, de imediato, se comprometeram com a pauta e com construir conjuntamente esse projeto, de forma participativa.
O foco inicial é a praça e depois a gente deve estender a ação para o restante do campus. A gente tem, nesse momento, um recurso ainda insuficiente para realizar o projeto da praça. A reitoria está buscando captar os recursos.
A gente tem uma estimativa de que a requalificação completa de todo o campus e da praça custa em torno de R$ 3,5 milhões. Nosso foco inicial é a praça, a requalificação completa desta é algo que gira em torno de R$ 1 milhão, para dotá-la de todos esses equipamentos e infraestrutura necessária para as atividades. Desse valor a gente tem no momento um recurso de R$ 200 mil de uma emenda parlamentar destinada a esse projeto.
Mas, a reitoria – a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura principalmente – está em busca de captar mais recursos, junto a fontes de parlamentares ou de pessoas que possam ter interesse na pauta específica da Educação e do enfrentamento à ditadura militar e tudo mais.
O quadro hoje é esse. A gente tem um volume de recursos que é pequeno com relação ao que precisa ser feito, mas que garante, de certa forma, um primeiro passo da intervenção.


