Evento sobre 10 anos de cotas debateu desafios enfrentados por cotistas e renovação do pensamento social brasileiro

A política de cotas na universidade brasileira esteve em foco na discussão realizada no auditório da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da Unirio na última terça-feira, 29 de novembro. No contexto dos 10 anos da Lei n. 12.711/2012, conhecida como Lei de Cotas, e do mês da Consciência Negra, a professora Maria Aparecida Ribeiro apresentou o livro “Memorial de uma academia negra”, no qual reúne um conjunto de textos que narram a experiência de cotistas com a academia na forma de gêneros textuais variados: ensaios, relatos, ficção, poesia e outros. O livro foi organizado pela docente, que hoje integra o departamento de Letras da Universidade Federal de Sergipe (UFS), mas que já fez parte da Escola de Educação da Unirio e foi, inclusive, presidenta da Adunirio.
A publicação reúne a contribuição de vários autores que atenderam ao convite feito a professores, estudantes e técnicos para fazer um balanço dos 10 anos da política de cotas no contexto da normatização definida pela lei. O processo de produção do livro destacou uma percepção que a professora Maria Aparecida trouxe para a discussão: o estudante cotista resiste a falar do tema, pois enfrenta obstáculos decorrentes das violências simbólicas vividas em um espaço que resiste a superar seu histórico de exclusão e se vê sobrecarregado com exigências acadêmicas estritas que coloca para si mesmo na perspectiva de que precisa mais do que os outros provar que merece estar ali.
A professora Selma Maria da Silva, coordenadora do grupo de pesquisa Laboratório de Memórias em Educação das Relações Étnico-Raciais na Formação de Professores (LabMere), destacou o brilhantismo de alguns estudantes cotistas para os quais deu aula, apontando que o sistema de avaliação que seleciona todos estudantes de graduação é o mesmo e que após a entrada na universidade as exigências são uma novidade para todos os tipos de aluno. “As dificuldades textuais acometem a todos, pois a competência textual para os gêneros acadêmicos é específica”, afirmou.
Um histórico da política de cotas que antecede os dez anos nos quais vigora a lei foi feito pela professora Rosineide Cristina de Freitas – 2ª vice-presidente da Regional Rio de Janeiro do ANDES-SN e coordenadora do GTPCEGDS (Grupo de Trabalho Políticas de Classe para as Questões Etnicorraciais, de Gênero e Diversidade Sexual). A docente enfatizou que “a política de cotas não representa só a entrada de pessoas pretas na academia, mas também a descolonização da universidade”. Destacou que a formação de intelectuais negros foi capaz de produzir contribuições que preencheram lacunas e atualizaram o pensamento social brasileiro, contribuindo para entender um país que silencia sobre aspectos fundamentais de sua formação social e histórica.
A Adunirio disponibiliza para seus filiados alguns exemplares do livro “Memorial de uma Academia Negra”, assim como versões impressas das Cartilhas de Combate ao Racismo produzidas pelo Andes-SN. Interessados podem vir buscar na nossa sede, no CCH (Av. Pasteur, 458 – Praia Vermelha).


