Entrevista – Presidenta eleita para próxima gestão do Andes-SN, Rivânia Moura, apresenta perspectivas para próximo período
Com 7.086 dos votos válidos contra 5.658, foi eleita no início do mês de novembro a próxima gestão do Andes-SN, que deve tomar posse em dezembro durante o Conad. A gestão Unidade para Lutar terá à sua frente a professora Rivânia Moura, docente da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN) e na Regional Rio de Janeiro, entre outros, contará com a professora Camila Moraes, da Escola de Turismo da Unirio.
Entrevistamos a presidenta eleita do Andes-SN , Rivânia Moura, para antecipar o que podemos esperar da próxima gestão que estará à frente do movimento docente das instituições superiores nos próximos dois anos.

Adunirio – O que você identifica como pautas prioritárias a serem abordadas pela gestão que assume agora?
Rivânia – Nós temos pautas muito importantes para serem enfrentadas por essa nova gestão. Entre elas temos a Reforma Administrativa, que já está em curso e que precisamos enfrentar em conjunto com a classe trabalhadora. Trata-se de um ataque aos serviços públicos, uma transformação do Estado brasileiro, daquilo que a gente ainda tem da Constituição de 88. Uma transformação profunda que torna o Estado subsidiário, tendo o mercado, o capital, como grande protagonista. A Reforma Administrativa apresenta uma série de medidas que envolvem a contratação, a estabilidade, os concurso, a possibilidade de nomeação de pessoas para cargos de liderança e a possibilidade de privatização das estatais. Isto tem um impacto enorme, não só para os servidores, mas também para os seviços públicos. E, impactando os serviços públicos, impacta a vida da classe trabalhadora que precisa desses serviços, que precisa de saúde, educação e assistência social. Precisamos estar juntos com todas as entidades do serviço público, com as centrais sindicais, com os demais sindicatos, com os movimentos populares, sociais e estudantil para o enfrentamento dessa pauta.
Uma outra pauta urgente e específica da Educação diz respeito aos cortes orçamentários, e está vinculada à Reforma Administrativa. A gente precisa enfrentar o corte no orçamento para Educação em conjunto com as instituições de ensino superior públicas, porque essa diminuição tem um impacto enorme no funcionamento da universidade e, inclusive, na garantia do tripé ensino, pesquisa e extensão. O corte incide na manutenção das universidades, mas também há corte no orçamento das instituições de fomento a pesquisa e na assistência estudantil. Isso tudo está vinculado à concepção de Educação que o governo federal tem para o Brasil, que é uma educação pública cada vez mais mínima, precarizada e aberta para o mercado.
O ensino remoto é outra pauta urgente, pois se tornou uma realidade frente à impossibilidade de abertura presencial das instituições de ensino superior, mas que na nossa compreensão não pode ser naturalizado e tornado permanente. Essa naturalização também destrói o projeto de Educação que o Andes tem construído nos seus quase 40 anos, destrói o projeto que a gente defende de uma educação pública, de qualidade, socialmente referenciada. A modalidade remota se apresenta como estremamente precarizada, na qual os professores se responsabilizam por todas as condições de trabalho, e também se mostra excludente, como se pode ver com os muitos estudantes desistindo, com as altas taxas de evasão. As seções sindicais precisam pautar as administrações das suas universidade para enfrentar problemas que já estão em curso relacionados às condições de trabalho e juntar forças em todos os níveis para que essa atividade remota precarizada não se torne regra.
Adunirio – Há uma pressão crescente do governo Bolsonaro para acabar com a autonomia das universidades, aumentando o controle centralizado no governo federal e a serviço do mercado. O que precisa ser feito para frear esse ataque às universidades?
Rivânia – A gente tem vivenciado nesse último período um processo de nomeação de interventores. A condução às reitorias de pessoas não escolhidas pela comunidade acadêmica é um ataque frontal à autonomia e à democracia das universidades e institutos. Já temos hoje no Brasil dezessete instituições, entre universidades e institutos, que estão com interventores. A última é a Universidade Federal da Paraíba. Nós precisamos fazer uma luta conjunta dessas e das demais instituições também para barrar esse processo, para revogar todas as intervenções e para nomear os reitores e reitoras que foram eleitos e eleitas.
Adunirio – Percebemos no último período casos de perseguição a docentes por expressarem suas posições políticas ou mesmo pelo conteúdo das pesquisas em que estão envolvidos. Isso se dá, geralmente, na forma de retaliações que acontecem por vias burocráticas, por parte de reitorias e departamentos, mas também nas salas de aula por meio do constrangimento direto. Qual o papel do Andes-SN no enfrentamento desse problema?
Rivânia – Nós temos visto o crescimento da perseguição aos docentes, o que ficou mais efetivo depois das eleições de 2018. Nós temos vários professores e professoras que estão sofrendo até hoje com processos administrativos e até processos criminais por conta dos conteúdos de suas pesquisas, de suas aulas, por manifestações públicas, por atividades produzidas dentro das instituições de ensino superior… Tudo isso está vinculado a esses processos que falamos das intervenções, fazendo parte da mesma característica desse governo de extrema direita, conservador, de silenciar as vozes contrárias ao projeto nefasto que tem sido implementado por ele. A gente precisa entender como tudo isso está articulado: a luta pela democracia, a luta contra as perseguições políticas. O papel do Andes deve ser o de fazer a luta conjunta com todas as universidades, entendendo que essa é uma luta que não pode ser feita de forma isolada, que precisa ser feita de forma coletiva.
Adunirio – Podemos observar uma polarização e uma crescente disposição das pessoas em manifestarem suas posições políticas na sociedade brasileira atualmente, mas isso não necessariamente tem se convertido em mobilização expressiva das bases sindicais. Como você entende esse gargalo da mobilização e o que a próxima gestão pretende fazer em relação este ponto?
Rivânia – Esse é um dos grandes desafios, nós não temos dúvidas disso. Estamos em um contexto difícil, com um governo de características diferenciadas, ainda num contexto de isolamento social, de pandemia, o que nos impõe alguns limites para o processo de maior enfrentamento, de manifestações ampliadas de rua. Entretanto, a gente entende que o nosso papel à frente do Andes – Sindicato Nacional, como colocamos ao longo da campanha, é a construção da unidade. Esse é um grande desafio, mas nós não temos outra alternativa para os trabalhadores e trabalhadoras do que a mais ampla construção de unidade que a gente possa fazer. Seja por dentro da nossa categoria, independente das correntes que militam no Andes e das posições diferenciadas, assim como também na construção da unidade com outros segmentos da classe trabalhadora, com as centrais sindicais, com os movimentos populares, com as frentes e com os fóruns. A gente precisa aglutinar forças para fazer um grande enfrentamento, pois nós estamos sofrendo grandes ataques. Precisamos entender, neste momento, que as nossas diferenças não podem ser maiores do que a nossa necessidade de luta. Sabemos que é um grande desafio, mas estamos nos propondo a isso, seguindo exemplos como o do Chile e vários outros na América Latina de que é possível fazer um grande enfrentamento e impôr derrotas a esse governo.
Adunirio – Qual o papel dos Grupos de Trabalho do Andes-SN na construção da política do movimento docente para vocês que assumem a nova gestão?
Rivânia – Os Grupos de Trabalho são muito importantes para organização das lutas, pois por eles passam muitas discussões que vão ser operacionalizadas a partir do Plano de Lutas decidido no nosso congresso. A gente tem um desafio, porém, de que esses GTs tenham representatividade nas sessões sindicais, com representantes das sessões nos grupos, mas também que os grupos passem a funcionar dentro dessas sessões, porque senão eles perdem a sua característica de construção e discussão dessas pautas mais localizadas. Então a gente tem esse desafio de aproximar as regionais das sessões sindicais e, principalmente, de fazer com que os GTs possam ser operacionalizados e tenham uma regularidade dentro das sessões sindicais. Essa é uma tarefa que a gente precisa e vai assumir, de incentivar que as sessões sindicais criem também seus GTs, pra que a gente possa agilizar as discussões e pautas e, assim, construir o que é fundamental que é a luta e o enfrentamento. Então, a gestão Unidade para Lutar se inicia num contexto muito desafiador, muito complexo para a classe trabalhadora, mas se inicia também com essa vontade de construção coletiva, de construção da unidade, de permanecer na luta, de fazer os grandes enfrentamentos. Para isso chamamos também toda a categoria para entender o compromisso do Andes, para construir essa nova gestão e para estar presente em todos os momentos das nossas discussões e lutas.


