Debate destaca os bloqueios aos recursos naturais e a destruição promovidos pela lógica do mercado
“A questão ambiental e as resistências populares” passa a integrar a pauta de lutas da Adunirio a partir do debate, de mesmo nome, realizado no auditório do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia (CCET) e do Instituto de Biociências (Ibio), no dia 28 de novembro. A iniciativa dá início à retomada das atividades do GT Política Ambiental, Urbana e Agrária (GTPAUA) em nossa seção sindical. O debate integrou o calendário da greve da Unirio, fechando o primeiro dia da agenda de mobilização e de realização de espaços de reflexão crítica sobre a atual conjuntura.
O rompimento da barragem de Mariana-MG, em novembro de 2015, evidenciou, para quem ainda não queria enxergar, a falácia do desenvolvimento brasileiro, os riscos a ele atrelados e o potencial devastador, para vidas humanas e para o ambiente natural. Portanto, discutir alternativas de luta e resistência entrou definitivamente na pauta social e acadêmica do País.
O bem natural essencial para a vida, a água, portanto, tornou-se o eixo estruturante do primeiro debate sobre a “A questão ambiental e as resistências populares”, onde se questionou a lógica do mercado, legitimada politicamente e pela mídia, que bloqueia o acesso e degrada os recursos naturais necessários à vida humana, o que produz resistências populares contra a exploração capitalista.
O debate contou com a participação de Leonardo Maggi, coordenador nacional do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB), de Gustavo Gomes, professor da UFF que realizou uma importante pesquisa sobre regulação da água no Brasil, e de Daniel Fonseca de Andrade, professor da Unirio e doutor em Ciência Ambiental pela USP.
O professor Gustavo Gomes destacou a falácia do discurso hegemônico sobre a relevância do uso doméstico no problema da escassez da água. Segundo ele, esse setor participa “apenas algo entre 2 e 5% do consumo mundial de água”, mas as propagandas oficiais “culpabilizam os indivíduos pela utilização que fazem nos espaços domésticos” legitimando, assim, as políticas de aumento das taxas na cobrança sobre o consumo nos lares. Enquanto isso, as indústrias e o agronegócio possuem altos níveis de consumo, mas recebem isenções fiscais sem nenhuma contrapartida para a sociedade.
Leonardo Maggi relembrou do crime de Mariana, relacionando o ocorrido com a postura da Vale que dobrou a sua produção na região mantendo a mesma infraestrutura de contenção dos rejeitos. De acordo com ele, a queda nas taxas de lucros das empresas, principal causa das crises capitalistas, faz com que se intensifique a ofensiva das empresas para “se apropriar das bases mais lucrativas” de recursos naturais. Assim, expropriam os direitos das populações que necessitam do acesso aos recursos ou vivem em zonas diretamente sujeitas aos impactos das atividades extrativistas e dos megaempreendimentos de engenharia.
Buscar formas de “colaborar no processo de resistência” foi o destaque feito pelo professor Daniel Fonseca, que colabora em um projeto no Morro da Formiga. O docente explicou que esta comunidade aprendeu a partir da própria experiência com uma tragédia de desabamento no final da década de 80 como a relação com o meio ambiente mobiliza uma série de esferas fundamentais da vida como a justiça, a auto-estima, o racismo, os direitos etc.
Entre os presentes, estudantes e docentes expressaram ao fim do debate o desejo de dar continuidade a debates relacionados à temática ambiental e que favoreçam tanto a abertura da universidade para a participação dos movimentos sociais quanto iniciativas de apoio as suas causas.
